terça-feira, 30 de janeiro de 2018

DO QUE O MEDO É CAPAZ


DO QUE O MEDO É CAPAZ

 “A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido.”
- H.P. Lovecraft
-

Era uma noite típica dos cafundós da zona rural. Destacava-se neste pano de fundo feito de trevas, uma lua enorme, que de tão luminosa ofuscava as estrelas que salpicavam incontáveis no azul marinho profundo do céu. 


 
Os dois primos-irmãos, formavam a melhor dupla sertaneja de toda a grande região circunvizinha aos rios Itararé e Verde. Vinham eles de retorno  após uma cantoria - à colônia da fazenda onde moravam.

Estradão de chão batido, onde tinham que percorrer várias léguas. À medida que percorriam a estrada  iam deixando para trás sítios e outras fazendas, ladeada de mata em ambas as margens, ela ia se estreitando, vez que suas moradas ficavam ao fim desta servidão. Não havia outro caminho.
 
A lua se filtrava por entre as árvores e galhos, deixando uma profusão de sombras e luz no chão da estrada, rajando-a como pele de um tigre monstruoso. Neste emaranhado de luz e sombra, a vista até se embaralhava, deformando e recriando formas estranhas.
 

Os dois primos cantadores, um para não demonstrar ao outro o medo que sentia, vinham cantando modas de viola como se nada os perturbasse. Ocorre que por aqueles tempos,  a região toda era ainda de lugarejos, só os maiores deles tinham ido à comarca, eram correntes as histórias de fantasmas, aparições, a tal mulher de branco da estrada e outras histórias mais. Tudo sendo fruto  - hoje sabemos - da falta de informações, além da oralidade e tradição somente. Baseavam-se no que ouviam de pai para filhos.





Contudo, tinham que passar ainda lá adiante, por um pequeno e velho cemitério de beira de estrada, com seus túmulos quebrados, escurecidos e ao abandono. As cruzes de ferro enferrujadas, com as plaquinhas de identificação restantes soavam ao vento, como arrastar de esporas chilenas. Diziam ser do fantasma de um capataz tirano que ali fora enterrado.


 Os pios das corujas faziam o pessoal que por ventura por lá caminhassem á noite - o que raramente ocorria - arrepiar-se de medo. Neste cenário tomados pelo medo e em plena escuridão, começaram a ver "coisas"e em tal clima cavalgavam os cantadores.



De repente, um deles dá um grito rouco de horror. E sem fala, depois de um tempo gaguejando aponta adiante, alertando o companheiro, que entre luzes e sombras podia se ver além de uma gigantesca caveira por trás das árvores, quatro pessoas carregando um caixão de defunto em direção ao campo santo.
 
O que fora alertado, diz: - Mas não é possível, já passa da meia noite e nesse cemiteriozinho abandonado há décadas não se enterra ninguém por ordem municipal. Só lá na cidade sede da comarca é que pode, depois de pagar taxa na prefeitura. O outro responde, depois de voltar o fôlego: - Mas assombração não quer saber disso... Credo em Cruz, Alonso! Vamos voltar daqui, os cavalos estão refugando, falou Josiel - cuja dupla levava o nome de Alonso e Josiel.


Era corrente o ditame, que se o cavalo refugasse ir em frente, era coisa de outro mundo. Até moda de viola existia a respeito.

- Que vamos fazer? - Pergunta Alonso ao tempo que diz: Mas Josiel, já estamos quase chegando, é só passar a porteira lá adiante. - O cemiteriozinho ficava após essa primeira porteira de um sítio da servidão.


- Só se você for sozinho, eu nem morto - diz o primo ao companheiro.

Nisso, ao verem lá adiante a porteira observam que os quatro que levavam o caixão param.

Alonso, o menos medroso dos dois, fala para o primo: - Seja o que for: caridade é caridade e deve espantar assombrações. Vou acreditar que sejam pessoas muito pobres que não têm dinheiro para pagar taxa lá na comarca, por isso estão levando o defunto de madrugada para por o de cujus em qualquer túmulo velho... e, não conseguem abrir a porteira por estarem com as mãos ocupadas segurando o caixão.
 

Ao se aproximarem mais um pouco, mesmo com os cavalos bufando... o que veem!? A luz da lua cheia, as sombras confusas do claro-escuro dos galhos retorcidos incidindo sobre a estrada, pedras e no caso, no dorso de animais, criou-lhes com o auxílio da imaginação deturpada e acelerada pelo medo - uma terrível aparição.
  
Na realidade... eram quatro vacas leiteiras, cujos rabos balouçantes e úberes cheios, sob sombras e raios de lua filtrados por entre a vasta vegetação, deram a impressão aos primos de serem quatro homens levando um caixão.
Pararam na porteira pelo óbvio, para as vacas tinha acabado a jornada estradeira. Foi só Alonso abrir a porteira e os "fantasmas bovinos" prosseguiram o caminho



Aliviados conseguiram dar uns sorrisos amarelos com o comentário de Josiel à distância: - Eu já estava desconfiado de que era isso mesmo primo!
                                             


segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

A GAROTA DOS OLHOS VERDES E AZUIS

Desenho de ///StºS

A GAROTA DOS OLHOS VERDES E AZUIS

MAURO MARTINS SANTOS
Tive em minha juventude – reconheço - grandes alegrias, momentos de exultantes felicidades. Momentos eu digo, porque a felicidade não é um sentimento que “mora” conosco, ela nos visita, portanto é uma visitante. Nós a hospedamos, damos-lhe cama e mesa, todo nosso amor e carinho, afagos, toda a nossa atenção, imploramos-lhe que permaneça junto a nós, que fique mais um pouco, mas se resolver ir embora, ela irá. Nada, nem ninguém, força humana alguma a segura dentro de nós. A felicidade é uma grande e generosa amiga, mas temperamental. Tem sua vontade própria. E outra coisa, não aceita superficialismo artificial: bebidas, drogas e estimulantes. Ela se vai do “hotel” desta vez de forma definitiva. Leva junto outros hóspedes vizinhos, deixando o “prédio” vazio, e em ruínas. Não importando se a hospedagem era nova ou mais velha. Ficando cheia de fantasmas agressivos.

Por isso é lugar comum, mas pura verdade, quando dizemos: “a felicidade é feita de momentos”. Temos “momentos felizes”, que na maioria das vezes não chega a um dia inteiro. Outras vezes a felicidade é mais duradoura e nos dá uma “colher de chá”, permanece conosco semanas, até meses, mas não digam que foi de modo contínuo, ininterrupto.

A constância e a plenitude da felicidade é uma mentira. Nós todos temos uma meia felicidade, porque é da natureza desse sentimento não ser completo. E, o que não é completo não pode ser uma verdade. Sabemos que uma meia verdade ou uma verdade faltando um pedaço, é uma mentira. A verdade ou é inteira ou não é uma verdade. Assim não seremos meio felizes, mais ou menos felizes. Ou somos ou não somos. Como o caso daquela de Alexandre o Grande... Não existe Alexandre o Médio ou o Mínimo. Ou será “o Grande” o nenhum outro.

Assim acontece com a felicidade, e a quem diz que vive uma felicidade plena, ininterrupta, completa como fosse uma obra de arte acabada. Está mentindo! Ou para enganar a si mesmo ou aos outros. Muitas pessoas, para disfarçar sua frustração, decepção ou fracassos perante os anos, a carreira e a vida em si, acenam com a bandeira da felicidade incondicional.
Sabemos que não. Também sabemos que é possível ter o maior número de momentos felizes que pudermos na vida. Isso é verdade! A vida é uma sucessão de fatos díspares, como pedras: umas mais lisas, outras mais rústicas, algumas com arestas e pontas. Nem todas são seixos rolados.

Podemos preparar nossa mente, sede de nosso espírito, alma, de forma que eles sejam cada vez mais receptivos aos momentos felizes. A escala de valores a que atribuímos à felicidade é muito importante, se pequenos momentos nos alegram a alma é muito mais fácil obtermos maior número de momentos felizes do que aqueles que colocam muito alto os objetos de desejo. Os seus custos podem - e quase sempre estão fora da realidade em que vivem. 

Disse-nos o Grande Mestre “Não vos preocupeis com o dia de amanhã...” ou “De que vale ganhardes o mundo inteiro e perderdes vossa alma?”, ou para Jonas, que se estafava no deserto, ao encontrar um pé de hera, se acolheu á sua pequena sombra. De repente essa hera secou e morreu. Jonas em desespero se lamentou e lamuriou-se. Deus lhe fala: “Jonas, por que se lastimas por um pé de hera, o qual tu não plantaste, não regaste e da mesma forma que nasceu, morreu?” Assim somos todos nós. Preocupamos com o futuro, que de incerto não nos pertence. Ou ganharmos fortunas, sermos avarentos com o que temos se amanhã podemos perder a alma vivente que está em nós, que também não nos pertence e sermos como se diz: “Mais vale um cão vivo, do que um leão morto”. Ou lastimar a perda de bens ou coisas as quais são transitórias, muitas das quais, não plantamos nem regamos, foi nos dada pela Graça? Eis a felicidade. Como foi dito: - de Graça!


Na minha juventude, mais do que na fase adulta, fui sensível à busca da felicidade, porquanto as frustrações estavam de plantão me esperando para golpear. Mas sempre cultivei a busca e a leitura do belo. A busca do “saber ver” nos ajuda a encontrar o belo, a coisa, as pessoas que nos podem fazer felizes. Picasso disse: - Eu não procuro (o belo), eu o encontro.
Dessa forma, passei uma juventude com o maior número de momentos felizes que a maioria de meus amigos ricos, e eu sendo um auxiliar de sapateiro, cujo oficial era o meu pai. Estou inicialmente dedicando estas linhas, para dizer que busquei encontrar a beleza em todos os cantos. Sem pretensão de jactância ou proficiência alguma.

O que não nego e me mantém esperançoso até esta idade foi ser teimoso, persistente, perseverante, nunca tendo dó de mim mesmo vida afora, quando sabia que: “aqui no alojamento têm baratas aos montes, no acampamento escorpião é praga (de fato era) naquele alojamento os pernilongos levam a gente embora (milhares), a macarronada de ontem veio com barbante (aconteceu), a cabeça do frango veio com bico e tudo (idem, e com o milho do papo também.)  – se fosse o caso, diria a cidade o ano e o local, onde os fatos aconteceram.

Já na prática profissional, estar do lado de cá do cano de uma arma de um marginal, não é nada confortável (mas tudo passa). Isto "na busca de meu caminho" como escreveu Gorki em: “Ganhando o meu pão”.

Mas voltando, no decurso do tempo descobri que o desenho era uma arte em si, com começo meio e fim, e, que seu desenvolvimento com dedicação era um caminho para atingir a beleza. Desde bem cedo comecei a dar bastante importância às aula de desenho no Colégio. E frequentar aulas de desenho com o Professor Cação. Passei do desenho geométrico, que é a forte base para as perspectivas, linhas de fuga, proporções, formas e massas e volumes que ocupam o espaço, passei ao desenho artístico, que desenvolvi o mais que pude. Juntamente, sem desprezar nenhuma matéria, investi com muita dedicação também, às aulas de português. Passei a ser um bom aluno no geral, e ótimo em desenho, português e geografia, pois nesta matéria, me interessava muito saber os nomes de todos os acidentes geográficos, que formavam a paisagem dos países, os climas, estações, relação campo-cidade, rios, florestas, campos, cerrados e demais tipos de terreno que forram o planeta e os povos, pois iria num futuro fazer somatória com o desenho. Interessa-me também muito, o retrato. Ou seja, retratar no desenho, pessoas. Isto também tinha um objetivo mais imediato. Tinha a intenção de fazer o retrato de uma certa garota

Os intervalos de uma série de aulas (e até hoje) eram chamados por nós de “recreio”. O recreio para mim, era como disse, um “momento de felicidade”.
Enquanto o presidente do “Diretório Acadêmico dos Alunos” colocava os discos de Elvis Presley e os rapazes mais ricos, saracoteavam tentando na dança do “Rock and roll” imitar Elvis - para chamar a atenção das garotas é claro - eu nem bola dava para isso - estava ou retratando uma garota, ou lhe fazendo uma poesia. Muitas, se sentavam ao meu lado, tão juntinhas de mim que lhes sentia o calor do corpo.“Momentos felizes”...! Outras me pediam para ajudar-lhes nos desenhos: rosáceas, barras gregas, acharem os pontos de fuga, determinar a linha do horizonte, ou mesmo no “desenho do natural” obter as devidas proporções à folha de seu caderno, luz e sombra etc. Até mesmo no francês, idioma que tinha uma facilidade natural, e tinha aulas com  a Valdete Moreno em casa (ela era amiga da família). 

Mas não eram só as meninas que me procuravam para acudir dificuldades com o desenho ou redações, alguns colegas rapazes também: um, há anos, foi prefeito da cidade vizinha; outro já era riquinho (pais nascidos na França), herdou tudo, sendo filho único: o Alexandre Avignon. Outros se tornaram médicos, engenheiros e até um sacerdote, Frei Rui Moraes, girou o mundo e voltou a um seminário vizinho de frades franceses da ordem de São Francisco. 

No futebol, como fazia com tudo, dediquei-me exaustivamente aos treinamentos, com o treinador de goleiros do Moji Mirim Esporte Clube, então para ingressar à “Segunda Divisão”, que mais tarde passaria à “Especial” como está até hoje. Assim, tinha um verdadeiro fã clube de garotas, que me achavam o melhor "goleiro do mundo” - coitadinhas! Era muito bom, sem falsa modéstia, mas a falta de discernimento técnico delas potencializava meu desempenho. Era certo que o “Flamenguinho” nosso time juvenil, não tinha mais adversários. Este time teve em suas bases grandes nomes como Paulo D., que foi para o Santos FC. E outros para o Guarani de Campinas e Ponte Preta, outros ainda chegaram ao Flamengo do Rio. Eu voei mais baixo - cheguei aos amadores do M.M.E.C. e o goleiro que fora meu reserva, subiu com o Moji para a “Primeira Divisão”, hoje a especial. Bem, mas isto já é outra história...

Voltando às minhas atividades de jovem colegial: fazia mais sucesso com as garotas  ( apesar de ser pobre) do que os que eram mais abonados. Nos clubes, por exemplo, ia até a porta; como não era sócio voltava para sentar-me na praça e conversar sobre música com o sargento do Tiro de Guerra que era jovem e solteiro e tocava saxofone: jazz, blues, swing, música erudita e até músicas populares. Falávamos das grandes orquestras como Ray Conniff, Billy Vaughan, Glen Muller e demais. Outras vezes junto a dois ou três amigos que iam fazer ou já estavam fazendo filosofia: Josué Rodrigues, Manoel Macedo de Lima, Antônio Carvalho e até Benedito R. de Oliveira, também filho de um sapateiro que ganhou uma bolsa de estudo e foi para Coimbra estudar Medicina - ele Benedito, era barbeiro - um dia contarei a história dele.
Chegamos a ela, a garota dos olhos verdes e azuis. Como a conheci? Ela, eu não sabia, era uma minha admiradora. Gostava de me ver jogando futebol de salão no Colégio, gostava de meus desenhos, gostava de minhas brincadeiras (sempre sadias, mas às vezes tétricas) como um dedo polegar achado na calçada do necrotério que ficava em frente ao colégio. Esse dedo eu mostrava para as meninas, um dedo já roxo e com a unha amarelada e sangue em volta. Muitas garotas tinham ânsia, outras quase desmaiavam, outras choravam de nojo e medo. Só que tinha um detalhe: a garota dos olhos - verdes e azuis - ficava curiosa e não tinha medo! Olhava para o dedão e olhava para mim. O dedo em uma caixinha. Todas as outras debandavam só ficava ela. Com seus olhos bem verdes cor de folha vegetal, me fitando e eu admirando aqueles olhos verdes tão profundos. Ela dava um sorriso e apareciam duas covinhas em cada lado de seu rosto. Ela - lembro-me bem disso - corava muito facilmente. Possuía os cabelos castanhos claros. Mais baixa do que eu, não muito. Podia usar salto alto que atingiria minha altura de 1,75, sem afetação caso andássemos juntos.
Estranho para mim, foi o fato dela não ter se assustado e ficado curiosa.  Perguntou-me com sua voz delicada muito de acordo com seu visual: “Onde mesmo você achou esse dedo?” –  havia em seu belo rosto corado e no brilho daqueles olhos verdes profundos, certa dúvida quanto a veracidade da estapafúrdia exibição.
Não resisti, disse-lhe: - Sônia, para você, eu conto como é feito isso. É meu próprio dedo que está aqui. Passei azul-de-metileno e iodo nele, pus algodão nesta caixinha cortando um lado no formato de meu dedo polegar e o acomodei dentro dela. É um truque sua boba...
- Não sou boba – me respondeu. - Porque já estava desconfiada, você não seria capaz de fazer isso de verdade... Eu te conheço!
Esse “eu te conheço” soou para mim como um “eu te amo”.
Os jovens são emotivos e impulsivos, mas são espertos também. Existem jovens e jovens. Todos que fomos jovens sabemos disso!
Passou o tempo. Sempre conversávamos no interior do colégio, no galpão do “recreio”, nos corredores. Ainda não havíamos tratado nada. Nenhuma incursão até a sorveteria (mesmo porque sempre estava sem dinheiro). Encontrávamos à noite, depois íamos comprar pipocas e sentar na Praça Central da cidade defronte à matriz (bela réplica do gótico tardio).
Interessante, que apesar da grande beleza de Sônia, comentada por suas amigas e meus colegas que diziam: Você é sortudo mesmo, que garota linda é sua namorada. A Iza, (Luiza) dizia-me sempre a Sônia é linda, você é um rapaz de sorte. Com tantos querendo conquistá-la... Mas sabem quando aquele amor afetuoso não havia chegado ainda? Até o dia em que ela me disse: - Sabe o que mais admiro em você? Respondi: - Não! A sua educação! – afirmou ela.
Refleti no peso que ela colocou naquelas poucas palavras: "sua educação". Divaguei. Ela não está elogiando somente a mim, mas aos meus pais, além de mim existem muitos outros fatores que implicam – pelo menos implicavam – quando se afirmava: Você é educado (a). Existe a criação, a família, a escolha dos amigos, a ausência de vícios, uma crença. Um modo de vida. O modo de vida conquista, pensei. Não é isto que sempre busquei? Nunca quis grandes reconhecimentos, mas esse reconhecimento era diferente. Não visava as coisas materiais, mas atingiu diretamente meu senso comum. Toda minha busca pareceu-me terminar ali. Com as palavras curtas, quase sussurradas, como era sua voz, sem corar, mas direta: “O que mais admiro em você é sua educação!" Momento intenso de felicidade!
Nas coisas do amor como diz, Rubem Alves, “fazemos amor com as palavras”. Quando se faz amor com as palavras, fazemos poesia, Sônia merecia além de meu amor uma poesia. Eu iria fazê-la e lhe entregar de surpresa. Passei a amar Sônia. Nem ela própria nunca soubera qual fora o gatilho que detonou de verdade meu amor por ela.
As palavras nos fazem felizes ou infelizes. As palavras dela me fizeram imensamente feliz. Não foram os beijos, nem os: “eu te amo”. Mas aquelas, que em outro contexto, cessariam num “obrigado”. Em coisas de amor não se deve agradecer. Estraga tudo! Disse: - Imagine. Apenas trato bem as pessoas, e você é observadora! Ela: - Não, você é especial. Admiro sua educação.
Pensei divagante, na Idade Média. Deveria ser isso que conquistava as damas, os Cavaleiros (mais tarde cavalheiros) com sua cortesia (faziam a corte). Nos séculos seguintes, o “cavalheirismo”, correr e jogar a capa para as damas passar por cima e não sujar os pés na lama. Abrir a porta das carruagens e oferecer o braço como apoio, para as damas subirem. Os genes das verdadeiras damas ainda deviam estar vivos nos corpos de muitas mulheres atuais. Porque não? Teria Sônia herdado genes que provinham desde a Idade Média. Teria eu, com esta minha tendência constante em desenhar castelos, a bico de pena (nanquim) retratar Guinevere, Lancelot, Artur, e Camelot, muitos castelos da Bretanha, França, Escócia, Gales, Portugal, Espanha, muitas donzelas e princesas, as justas entre cavaleiros e suas armaduras, executados com detalhes realistas (fiz várias exposições com desenhos de castelos medievais): “The Medieval Castle”. Claro que eram apenas divagações. Mas aumentava o romantismo, quando pensando nisso a via tão linda, usando uma tiara. Imaginava: Sônia é uma donzela saída da história e caída em meus braços.
Só a via a noite ou nas sombras dos galpões do colégio, interior da igreja, nos corredores sombreados, até porque, encontrava-me com ela de acordo com a ocasião e os momentos apresentados. Como disse antes, não havia ainda em mim um ímpeto em buscá-la, a qualquer momento.
Após as curtas palavras ditas por ela naquela noite, de cálida brisa, um vívido luar e um céu muito estrelado. Havia até certo perfume especial nela que eu sentira, mas não retivera e agora o sentia. Porque tudo compunha um cenário mágico. Vinha-me à mente: “Sabe o que mais admiro em você? - Sua educação!”
Aquilo houvera me soado com uma pureza cristalina, uma magia benfazeja e eu a beijei terna e demoradamente. Surgiu em mim um misto de carinho e fervoroso amor, um espírito de gratidão não a ela, mas às forças que me fizeram encontrá-la. Iria procurá-la mais e mais vezes agora. Eu sabia que o que sentia por ela não era outra coisa senão um profundo e cálido amor.
Certo dia, em um quente e ensolarado verão, já havia me formado, ela ainda não. Estava no último ano do então “Científico”, ela dizia que iria ser enfermeira, iria fazer a faculdade de enfermagem depois doutorar-se, embora já lecionasse música como professora particular em sua casa na Avenida Barão do Rio Branco, tocava piano (hoje chamamos de
 “teclados”), também violino, flauta e violão. Tinha estudado desde os quatro anos de idade, os doze anos exigidos para o piano e violino em Campinas, onde morava com uma tia já idosa (que se esquecia que estava no Brasil e quando falava em polonês corava como Sonia).
Encontramos-nos em frente ao Hospital da Santa Casa, o mesmo hospital que possuía o tal necrotério nos fundos, onde disse ter achado na calçada o dito polegar. Começamos a conversar e os que se amam fitam-se nos olhos – falam mais que as palavras – e eu fiquei ao fitá-la, estarrecido!...
Ela percebendo meu espanto, preocupou-se seriamente comigo, e eu a fitava e mais inquisitivo me punha. Ela dizia-me: O que foi? Fiz alguma atitude que não gostou? Está ofendido por alguém ter falado alguma coisa de mim para você? Fale comigo!
Falei surpreso e meio gaguejante. Mas você não tem os olhos mais verdes que as folhas desta palmeira (próxima a nós), ontem mesmo eu vi!? Ela se pôs a sorrir lindamente com suas covinhas no rosto e corou muito.
Sabe - como é algo que me pertence e há muito tempo, escapa de ser citado em conversas: eu tenho os olhos verdes na sombra ou à noite. E ao sol, na claridade eles são azuis.
Disse a ela: - Mas como é possível duas belezas em uma só pessoa Sônia? Na sombra seus olhos tem a cor mais verde que as folhagens e ao sol são mais azuis que este céu que vemos agora!
Ela riu: - Duas belezas! Vem ele com a educação e gentileza. Nem uma, quanto mais duas belezas!
Não lhe disse por que sua modéstia não iria concordar, mas eram três intensas belezas a compor seu lindo rosto: A de olhos verdes , a de olhos azuis, e sua alma suave e meiga, sempre pronta a agradar e a servir.
Como sempre diz Rubem Alves: Tempus Fugit. O tempo não cessa, não pára. Sônia, se forma enfermeira. Volta para sua cidade no Portal das Águas. Sua vocação para a enfermagem era tamanha que disse-me por carta que iria ingressar nas fileiras de missionários “Além Fronteiras” que iam para a África, Angola e Moçambique. Tentei demovê-la da ideia, não pela causa que era nobre, mas pelos perigos que iria correr, o tempo que isso nos roubaria, mas sobretudo pelo amor entre nós que era acima de qualquer aferição; incalculável por ser abstrato, mas dois corações sabem medir sua dimensão. Tudo já estava acertado, dizia-me na carta. Malas prontas, grupos de trabalho separados, enfermeiros, médicos, teólogos, agrônomos, dentistas...
Era irreversível sua decisão!
Queria ver seus olhos mais uma vez, acariciar aquela que tanto amava.
Ela disse-me na economia das palavras que sempre usava, que era melhor assim. Ir-se, sem me ver, seria menos traumático, estava fazendo aquilo, não por que deixava de me amar, mas ao contrário porque me amava muito, e seu íntimo, sua crença e a compaixão especialmente pelas crianças, morrendo sem nenhum cuidado, de desnutrição, pessoas que nada sabiam, nem ler, nem escrever, nem falar a própria língua dos colonizadores, o português. Ela citou-me Paulo e sua missão, seus sacrifícios, suas prisões tudo por amor às pessoas e sua fé. Paulo, o de Tarso, o apóstolo do Amor. - Por tudo isso meu amor, um dia, você vai orgulhar-se de mim!
Não tive mais argumento. Só falei: - Um dia você volta? Respondeu- me: - Voltarei. De qualquer forma voltarei, para o Portal das Águas... Voltarei!
Soube por intermédio de seus tios, que residem na cidade vizinha que comentaram na igreja a meu irmão, cunhada e sobrinhos que ela tinha feito Doutorado em Portugal na sua área de saúde.
Hoje...
Ela se encontra descansando na eternidade, na quadra 142/11 no cemitério do Portal das Águas, em seu túmulo tem uma placa de bronze com a seguinte inscrição:

DRª SONIA KRISTINA BARROS KOWPERIZSKY
“VIVEU PARA DOAR SUA VIDA, SEU AMOR E DEDICAÇÃO AO PRÓXIMO.
A DOUTORA SONIA FOI UMA HEROÍNA.”
MISSÃO “ALÉM FRONTEIRAS” - ETERNA GRATIDÃO.


Seu nome de solteira estava intacto. Ela nunca se casou. Além disso, também soube por seus mesmos tios na igreja, que ela, contraiu várias vezes malária e teve suas resistências minadas, mesmo assim disseram que ela continuou atendendo crianças e adultos contaminados com a febre, malária e doenças não dectadas e contagiosas, até que uma febre hemorrágica a atingiu. Dada sua fraca resistência, faleceu.

Derrubei lágrimas sentidas ao olhar sua foto no túmulo, seus olhos estavam bem verdes. Como se os lugares por onde andou fossem sombrios.
Ao me retirar, sob o sol daquele dia de verão, voltei-me para um último olhar - o amor não mente - a luz do sol refletia forte em sua  foto: Seus olhos estavam azuis!...
   

domingo, 28 de janeiro de 2018

REBOZO DE SEDA BRANCA DE SOLEDAD


REBOZO¹ DE SEDA BRANCA DE SOLEDAD
Mauro Martins Santos

- Não me acorras pelo meu semblante de Maria
Nem de Guadalupe, pois tantos são os que amo,
Em capela eu canto e louvo o Ângelus todo dia,
É desta forma que meu amor eu lhes proclamo...

Meu rebozo de seda, feminina é peça elegante,
Branco de minha etnia, há séculos, de existência,
Vestes de várias texturas, útil e deslumbrante,
Uma só coisa: as cores é que fazem a diferença;

A beleza da mulher mexicana eis o que revelo;
Balanço corpo e quadril, dengo em movimento,
Origem de nativos e negros formando um anelo,
Dessa estirpe eu faço orgulhosa meu sacramento;

De seda, o rebozo é um feminino complemento;
Para as lides do campo o tecido é bem grosseiro,
Nele carregam desde crianças, até algum alimento;
Cobre as frontes das mulheres pela forte tradição;
Semelhante a um retângulo lembra um envelope
- Veste o corpo de Soledad, junto vai meu coração!

______________________________________________



1. Rebozo - Peça tradicional, característica feminina do México,
sua origem é incerta. Mas é fato que vem de várias gerações de
antepassados muito distantes, passando pelas etnias indígenas,
pela mescla étnica de outros povos em miscigenação. Como procurei
retratar no poema, trata-se de uma peça de tecido de varias texturas
e cores, que caracterizam a etnia, e de multiuso; desde vestimenta,

complemento a utilitário nas lides de campo e cidade.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

ANJOS DE UMA SÓ ASA


 “Somos todos anjos com uma  só asa
que podemos voar
somente abraçados
uns aos outros”

F. Pessoa

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

RESPONDA, MEU CORAÇÃO...

RESPONDA, MEU CORAÇÃO

Grita tão alto meu coração a dizer que
o viver já não é importante,
Tua eterna fascinação, aos meus olhos
desfila constante,
Não é tão só a saudade, é dor pungente,
um sufocar deprimente,
Terrível morte sabendo-a viva a sorrir,
a torturar invisivelmente,
A este noctívago vagante...!

[M. Martins Santos]

PAUSA - por JOSÉ ROSÁRIO

Parece foto... mas é óleo sobre tela de José Rosário, mineiro de Dionísio-MG - BR .  Os temas rurais de sua cidade Dionísio-MG são sempre presentes em suas obras mundialmente conhecidas. Seus carros-de-bois é de uma perfeição e detalhamento impressionantes. Esse jovem artista é para mim uma referência da imagens e paisagens de nossa Minas Gerais.

VELHA CASA DE IMIGRANTES


CONCURSO VIRTUAL DE POESIA REGIONALISTA  
- CURADORA DO SITE LITERÁRIO- PEAPAZ - DRª SÍLVIA MOTTA  MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE ESCRITORES VIRTUAIS -
http://silviamota.ning.com/profiles/blogs/5503497:BlogPost:890172
Coordenador do Grupo Poesia Regional comentou a postagem no blog título:

“VELHA CASA DE IMIGRANTES”
Autoria:

Mauro Martins Santos
Certificada

Reconhecida
NO CONCURSO VIRTUAL DE POESIA REGIONALISTA  
CURADORA DO SITE LITERÁRIO - PELA DRª SÍLVIA MOTTA - MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE ESCRITORES VIRTUAIS)
Prof. Marco Bastos
Coordenador do Grupo Poesia Regional
comentou a postagem no blog título:

Adicionou uma DISCUSSÃO ao grupo Poesia Regional
Coordenadoria do Grupo Poesia Regional a postagem no blog, título:
“VELHA CASA DE IMIGRANTES”
Autoria:

Mauro Martins Santos
RECONHECIDA COM
TRAÇOS CULTURAIS AUTÊNTICOS DA POESIA REGIONAL.
http://silviamota.ning.com/profiles/blogs/5503497:BlogPost:890172

_________________________________________
Prof. Marcos Bastos
- Coordenador do Grupo de Poesia Regional
19/09/2014
___________________________________
Dra Silvia Mota
Academia Brasileira de Escritores Virtuais

TÍTULO E ENDEREÇO DO TEXTO: VELHA CASA DE IMIGRANTES,
RECANTO DAS LETRAS e PEAPAZ





VELHA CASA DE IMIGRANTES

Nas ruinas da tapera* abandonada
de pedra, construção sobradada,
sinistro silêncio ali fez morada.
O musgo de suas paredes úmidas,
gotejando parece até que chora.

O jazer da alegria, ida e fúlvida,
que um dia foi ali acomodada.
Algazarra, no correr de crianças,
a pequena menina de tranças,
tem sua foto na sala pendurada.

Seus pais: Luigi e Amábile e avós,
Joseph e Giusephina; no pequenino,
velho, ermo e musgoso cemitério,
foram enterrados à beira da estrada,
há muito nada são além do que pós!

Na paisagem nem mais um nada,
só o vasto contraponto dos éreos
nas rotas sepulturas abandonadas,
silentes qual fosse um eremitério!

Alojam-se corujas nas ramadas,
nos esqueletos de árvores e forquilhas,
aves de agouro nas tumbas escurecidas,
nada mais no ar, senão delas as tropilhas.

O varrer do vento frio da paragem
desta estância há muito esquecida,
eleva brumas em meio à densa friagem.

II
Antigos membros desta velha estância,
pelo mundo e pela vida; sairam andejando,
rastos de segredo e mistério foram deixando:
dor, desalento, desilusão de amor mourejando,
e como névoa que foge, se perderam na distância.

Lembrados em relances com saudade
a parentela: sobrinhos, cunhados e irmãs,
sem se virar largando todos os escombros,
tais lembranças ficaram legadas à eternidade,
os pomares de uvas, os pêssegos e as maçãs.

Todos se foram sem olhar por cima dos ombros,
por causa e razão de desdita e próprio desatino,
alí de tudo viveram, viram e não se esqueceram:
os nascimentos, as festas, bailanças, pane e vino,
do riso, da alegria dos irmãos e das jovens mães.

Abraçando cada um deles, feliz seu próprio destino:
As fornadas de pães retiradas e as mulheres cantando.
Nas lutas do campo, ao cuidar das uvas, de sol a pino,
não esqueceram o sofrimento que muitos padeceram.
Abraços, beijos sinceros: os casais viviam se amando!

Planos futuros ao pé da lareira, sentindo-lhe o calor.
Segredos,planos, sonhos, mistérios e desejos...
Genaro e Giovanna, o casal se amava com muito ardor.
Giovanna era a guria do retrato; a menina de trança.
'Feliz seria em lugar qualquer com ensejo e esperança!'

III

Fogão de lenha, na cozinha a família reunida,
Queijo, vinho, a fornada de pães,
mesa farta, salames, muita comida.
O tempo passou como tudo passa nesta vida.
A imigrante italiana Gioconda; um dia apareceu...
em uma das levas para o Sul que aconteceu

na imigração de italianos e alemães,
de Genaro na Itália ela era a primeira namorada,
desde adolescente Gioconda foi muito mimada.
O gênio da ragazza, não era coisa qualquer...
Imigrante, estava finalmente recém-chegada.
Genaro nunca se ausentou de sua lembrança,
Gioconda jurava que iria ser sua mulher.

IV
Pela família e por Genaro, ela foi recebida.
Giovanna da história nada sabia,
sua vida a Genaro era tão feliz e unida.
De repente seu sonho um pesadelo seria!
Gioconda ardilosa, à Giovanna contou
em detalhes, e no que pode tudo aumentou:
que seu relacionamento na Itália se consumou.

Este é o filho de Genaro, que fiquei esperando...
Trazendo um picolo bambino ao seu lado.
Genaro realmente fora seu namorado...!
Por isso, sem respostas ficou embasbacado.
A "menina loura de trança", viu-se despedaçada,
sentada naquela mesa, por ele mesmo lavrada,
Se viu só! Carregando seu filho pequena criança...

olhando a foto loura, da menina de trança,
de seus olhos azuis, uma lágrima rolou.
Um soluço pungente seu peito atravessou.
Aquela mulher magra, loura, alta e bonita,
foi muito forte, caminhando a passo lento:
-Teria outra vida, após malfadada desdita?
Rumou firme pela estrada onde a levou o Vento.

Ajeitou-se com a criança, enrolou-se ao cachecol.
Vestiu o velho poncho, e se pôs com fé a rezar.
De a pé, encolhida como se fosse um caracol.
Aos poucos foi sumindo na paisagem nublada,
bem ao tempo em que começara a nevar.
Ele não a chamou. Isso lhe fez a história confirmada.
Assim ali ocorreu, o último Inverno que a viu passar...
                                         <()>

Giovanna deixou um bilhete para Genaro, sobre a mesa lavrada por ele, com estas palavras apenas:

Ricordare che tutto ha l'impronta di Dio.
[Lembre-se que tudo tem a impressão digital de Deus.]

                                      <><><>



* TAPERA - s. Casa no campo, rancho, qualquer que seja o tipo de habitação, grande ou pequena, que esteja abandonada, quase sempre em ruínas, com partes às vezes destruídas, algumas paredes em pé e um arvoredo que se vê que é bem velho.// adj. Diz-se da morada deserta, inabitada, que passa a quem lhe olha uma certa tristeza, pondo a mente a cismar: quem ali viveu, quais sonhos tiveram, o que os levou a abandonar tudo, por onde andam agora... // V. a expressão andar como gato em tapera.


"Da tapera
Foi agasalho e morada,
colmeia de vida humana.
Última e só! Abandonada
concentra nessa campanha
toda solidão estranha
de um que sofre e não diz nada.
Leito de um rio que secou,
Recuerdo do que existiu:
- o que era corpo - fugiu!
Mas o que era alma -  ficou..."
(Aureliano, Romances de Estância e Querência, p.127)

Cai a noite
Na várzea do campo...
Tudo é silêncio
Na invernada;
Nem mais um piscar
De pirilampo,
Nem mais um mugido
Da boiada...
É só tapera, tapera!
... E mais nada ...!
(Cleber Mércio, Última Tropeada, p.118)