segunda-feira, 26 de novembro de 2012

JARDIM

Rubem Alves

Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.

Este pequeno poema de Cecília Meireles me encanta, é o resumo de uma cosmologia, uma teologia condensada, a revelação do nosso lugar e do nosso destino:

"No mistério do Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, urna violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de urna borboleta."

Metáfora: somos a borboleta. Nosso mundo, destino, um jardim. Resumo de uma utopia. Programa para uma política. Pois política é isto: a arte da jardinagem aplicada ao mundo inteiro. Todo político deveria ser jardineiro. Ou, quem sabe, o contrário: todo jardineiro deveria ser político. Pois existe apenas um programa político digno de consideração. E ele pode ser resumido nas palavras de Bachelard: "O universo tem, para além de todas as misérias, um destino de felicidade. O homem deve reencontrar o Paraíso." (O retorno eterno, p 65).
 


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

MÍSTICA DAS BEATITUDES


MÍSTICA DAS BEATITUDES – AUTO-RETRATO DA ALMA DE JESUS

TOMANDO PERSPECTIVA

Se o Evangelho é a alma da Bíblia, então as Beatitudes são o coração do Evangelho.

As oito Beatitudes, ou Bem-aventuranças, que formam o início do Sermão da Montanha, são jubilosas exclamações que romperam da transbordante plenitude do espírito do Cristo, após uma noite inteira de comunhão com Deus, como diz o evangelista.

Quase no início da sua vida pública, passou Jesus uma noite toda “em oração com Deus”, em êxtase,  em samadhi.  A alma do Nazareno estava mergulhada no oceano imenso da Divindade. E, quando, de madrugada, emergiu desse banho de luz e força, de amor e felicidade, foi tão irresistível o entusiasmo de que estava repleto, que não pode conter em si a divina plenitude, e, como o sol nascente, irradiou os seus fulgores sobre os discípulos e o povo que lhe correram ao encontro, sentindo ou adivinhando algo de extraordinário.

Desceu do monte, em cujo cimo havia passado a noite em mergulho místico, e, chegando a uma esplanada e vendo a fome e a sede do povo, sentou-se numa colina, e exclamou oito Bem-aventurados!... Bem-aventurados!...

As Beatitudes não são ensinamentos, a bem dizer; são experiências pessoais da vida íntima de Jesus que romperam as válvulas de retenção da sua alma e se espraiaram, irresistivelmente, sobre a humanidade de todos os tempos e países. Toda a plenitude, quando atinge o clímax da sua abundância, tende a difundir-se em derredor. Toda a explosão supõe uma implosão, e a implosão mística de Jesus havia atingido o seu máximo nessa noite, nas colinas de Kurun Hattin, ao sudoeste do lago da Galiléia.

As Beatitudes são o auto-retrato de Jesus.

Por isto as Bem-aventuranças não devem ser lidas ou ouvidas senão numa atitude de intensa espiritualidade. Quem lê ou ouve estas exclamações de entusiasmo místico num estado de profanidade, ou mesmo de mera intelectualidade, nada sentirá da sua sacralidade; possivelmente, as achará absurdas e revoltantes. Imagine-se: chamar felizes os pobres, os sofredores, os injustiçados, os famintos e sedentos, os que sofrem perseguição e difamação! Onde se ouviu maior paradoxo, mais revoltante sadismo, mais acerba ironia! Realmente, do plano horizontal do homem-ego, ninguém pode nem deve ler estas palavras, que brotaram das luminosas profundezas do homem-Eu, do homem-crístico, e só podem ser compreendidas e saboreadas dessa perspectiva de experiência mística da qual brotaram.

Não são palavras ego-pensadas, são experiências Cristo-vividas. Só quem pode dizer com Paulo de Tarso “já não sou eu que vivo – o Cristo é que vive em mim”, só esse pode saborear devidamente as Beatitudes. O homem ego-vivente, ficará apático, ou até revoltado, em face de tamanha sublimidade.

Quanto menos o leitor for ego-agente e quanto mais for Cristo-agido, tanto melhor compreenderá a sapiência dessa divina loucura.

É, pois, necessário que o leitor, antes de ler as Beatitudes, se ponha no mesmo ambiente interior em que elas foram vividas naquela bendita madrugada. Enquanto o homem não estiver devidamente sintonizado com a alma divina do Universo, com o Cristo-cósmico, não estará em condições de assimilar as lucerias e calorias das Bem-aventuranças do Cristo.

Aliás, esta sintonização Cristo-cósmica é o requisito para a compreensão de toda e qualquer palavra de Jesus que os Evangelhos nos conservaram. O que o grosso da humanidade entende por “meditação”, pouco ou nada tem que ver com essa sintonização crística. Quem pensa e analisa não entrou na verdadeira meditação, durante a qual o homem se deve calar, para que Deus lhe possa falar.

Quando o homem fala – Deus se cala.

Quando o homem pensa – Deus se dispensa.

Quando o homem deseja algo – Deus se eclipsa.

A verdadeira meditação é simplesmente um total esvaziamento de todo e qualquer conteúdo do ego-humano, para que a plenitude divina possa fluir para dentro dessa vacuidade humana. A fonte da plenitude plenifica somente a vacuidade. O homem ego-pleno não pode ser teo-plenificado, ou, em linguagem bíblica: “Deus resiste aos soberbos (ego-plenos) e dá sua graça aos humildes (ego-vácuos)”.

Neste mesmo sentido disse o Mestre:

“Eu te agradeço, meu pai, que revelaste estas coisas aos simples e pequeninos e as ocultaste aos eruditos... Quem não receber o Reino de Deus como uma criança não entrará nele”.

Muitos não conseguem reduzir-se a uma atitude de não pensar nada, e ficar ao mesmo tempo plenamente conscientes; quando não pensam, estão em perigo de cair em transe, na auto-hipnose, no sono, e nada resolvem. Mas quando o homem desce ao nadir do pensamento e sobe ao zênite da consciência, então está em verdadeira meditação, ou contemplação, e só então pode compreender espiritualmente e saborear deliciosamente o verdadeiro sentido das Beatitudes do Cristo.

Nas seguintes páginas, ao que parece, teremos de contradizer a tudo que acabamos de dizer: temos de falar, pensar, analisar as palavras de Jesus – que só deviam ser vividas e saboreadas em silêncio.

Prevenimos, por isto, o leitor de que aquilo que vamos dizer é a alma, mas apenas o corpo das Bem-aventuranças. Poremos apenas umas setas à beira da estrada; mas estas devem ser contempladas e depois abandonadas. Se o viandante se agarrar a um desses marcos à beira do caminho, ou até o arrancar e levar consigo, não cumpre a mensagem secreta do marco, que é transcendente, e não imanente. A mensagem da seta não é o aqui mas o além. O viandante deve saber que a seta não quer dizer “aqui é a cidade X” que ele demanda, mas ela é além, digamos daqui a 10 ou 100 km; o que a seta lhe diz é apenas: esta é a direção certa rumo ao termo que demandas, contempla-me, pois, e ultrapassa-me – e então terás cumprido o sentido da minha mensagem.

De modo análogo, deve o viandante, o leitor, contemplar devidamente, compreender previamente, a direção certa indicada pelas palavras – e depois ultrapassar todas elas e viver intimamente aquilo que leu e compreendeu.

Tudo que está neste livro é, pois, algo preliminar; nada é definitivo. O definitivo vem do leitor, e não do autor. O leitor é que, depois de tomar direção certa, deve realizar o conteúdo da mensagem, dia a dia, ano por ano, a vida inteira.

Depois de todos os ruídos, depois de ler, de ouvir, de pensar – é que vem o grande silêncio dinâmico da realização, a vivência da realidade.

“Quem ouve estas minhas palavras – assim encerra Jesus o Sermão da Montanha – e as realizar, se parece com um homem sensato que construiu sua casa sobre rocha; desabaram aguaceiros, transbordaram os rios, sopraram os vendavais e deram de rijo contra essa casa, mas ela não caiu, porque estava construída sobre rocha. Aquele, porém, que ouve estas minhas palavras e não as realiza, parece-se com um homem insensato que construiu sua casa sobre areia; desabaram aguaceiros, transbordaram os rios, sopraram os vendavais e deram de rijo contra essa casa e ela caiu – e foi grande a sua queda”.

A diferença entre o homem sensato e o insensato não está, pois, em terem ouvido ou não ouvido as palavras da verdade; mas está no fato de ambos terem ouvido e um só ter realizado a verdade das palavras em sua própria vida.

 Lê, ouve – e realiza a verdade das Beatitudes, e serás feliz, aqui e por toda a parte.

A CHAMA DE UMA VELA – GASTÓN BACHELARD

“A Chama de Uma Vela”, de 1961, Bachelard buscará o termo de sua estrutura de pensamento. Nesta etapa, o conceito que vinha delineando de Devaneio toma um aspecto central. O devaneio é uma atividade psíquica manifesta no mundo racional. E será na poesia e no seu estudo que se buscará a percepção desta atividade. O que importa na leitura de uma obra poética é o sentimento que a imagem pode provocar no sujeito-leitor. Para Bachelard, portanto, há uma relação direta poema-leitor que é única; para além mesmo da intenção inicial do autor do poema. A imagem literária é portanto, dialética.
Esta dialética avança pelo universo onírico dos poetas, estabelecendo a regra de que não há síntese possível entre imagem e conceito. Só através desta alma feminina e lunar é que se pode alcançar o lado noturno da alma. Aquele que guarda os tesouros do coração dos alquimistas, a pedra filosofal do sentimento de estar no mundo.

 Com este grau de amadurecimento, percebe-se em Bachelard  um alinhamento com diversos místicos e homens ditos iluminados por seus contemporâneos através dos tempos. Particularmente o pensamento oriental apresenta muitas similaridades entre a forma como a imagem per si é reconhecida como uma via de iluminação. Um caminho de ascese. No Ocidente, também identificamos em alguns cristãos místicos, como Angelus Silésius e São João da Cruz elementos semelhantes à pratica do conceito de devaneio bachelardiano. Por fim, o neoplatonismo, pode-se perceber, é corrente fortemente influenciadora em Bachelard. Desde sua fase inicial, através do culto aos quatro elementos, até a etapa final do devaneio onírico, onde se estabelece a relação entre o humano e o divino desde os tempos do bíblico José.
É forçoso reconhecer que o pensamento da cultura européia e ocidental sempre em termos gerais, desvalorizou a imagem como via reflexiva e a função da imaginação como elemento digno de estabelecer a fundação ou mesmo o centro de uma episteme. Entretanto, no século XX, e, muito provavelmente, também no século XXI, cada vez mais, filósofos, sociólogos e demais pensadores e analistas da cultura na qual estamos inseridos enfatizarão a necessidade de um caminho diferente do até então trilhado desde a fundação de nossa sociedade judaico-cristã, ou pelo menos, desde as bases estabelecidas na Grécia da razão dialética como via única de conhecimento. Assim como Bachelard, Sartre e outros pensadores do mesmo calibre concordam com a ideia de que a Imagem é diferente da Percepção. Esta simples constatação nos encaminhará para a via do Onirismo é um caminho que possui especificidades, muito diferenciadas da via intelectual.

Pode-se exemplificar as consequências de tal filiação de pensamento, mais voltado para o terreno fenomenológico, pelos percursos de acadêmicos que refutaram a racionalidade asséptica da pesquisa de campo, com suas conclusões traduzidas para o “ocidentalês” universitário, trilhando uma via que os levou a mergulhos no imaginário e no pensamento mítico de outras culturas e civilizações, chegando a transmutar suas próprias existências, desfazendo visões de mundos extremamente arraigadas em nossas mentes por anos e anos de educação tradicional., através da citação do pesquisador Carlos Castãneda, que com sua obra sobre a cultura dos índios Yaquis, do México, mergulhou em um novo universo, onde o onírico sobrepunha-se amplamente ao mundano e racional. Se fosse possível um encontro entre o filósofo francês e o antropólogo, que, dizem, é brasileiro, temos certeza de que o diálogo travado seria extremamente profícuo no sentido de uma fundação de uma ontologia do espiritual, onde o devaneio bachelardiano seria de extrema valia para o “parar o mundo” conforme insistentemente enfatizado por D. Juan ao seu discípulo.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012


O que a Bíblia diz sobre o ateísmo

Posted by Davi Lago in APOLOGÉTICA | Ateísmo

Por Davi Lago

 “Diz o tolo em seu coração: Deus não existe” (Salmo 14.1).

 Esta é uma das principais declarações que a Bíblia faz sobre o ateísmo. Podemos destacar dois pontos:

 1. O ateísmo é uma tolice

 Negar a existência de Deus é tolice porque a existência de Deus é óbvia. A Bíblia em nenhum momento procura defender a existência de Deus porque ela é a mais elementar de todas as verdades. A Bíblia já começa afirmando categoricamente: “No princípio Deus criou os céus e a terra” (Gênesis 1.1). 

 A Bíblia afirma que Deus não pode ser conhecido completamente por nós, mas pode ser conhecido suficientemente: “Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas” (Romanos 1.20).

 Deus é claramente visto na criação. Desse modo, o ateísmo é considerado tolice porque ele é irracional, é ir contra o evidente, o razoável. Na verdade o ateísmo é a maior tolice possível de se existir.  O ateu simplesmente fecha os olhos para as evidências e tapa os ouvidos para a razão. Mas por qual motivo ele faz isso? Isso nos leva ao próximo ponto:

2. A tolice do ateísmo surge a partir do coração pecaminoso do homem

 Nenhuma pessoa torna-se ateísta por causa de argumentos, mas sim por causa do pecado em seu coração. Não existe um único argumento conclusivo que prove a não-existência de Deus. Em Romanos 1.19 a Bíblia afirma que os ateus não negam Deus pela lógica, mas pela injustiça: “os homens suprimem a verdade pela injustiça”.

 A Bíblia afirma que o ateu nega a existência de Deus porque ele decidiu viver para o pecado. Ou seja, convém ao ateu que Deus não exista. Como afirmou Agostinho: “Ninguém nega Deus a não ser que lhe interesse que Deus não exista”.

 Só entre os homens pecadores encontram-se os ateus. A Bíblia afirma que até os animais não duvidam da existência de Deus: “Pergunte, porém, aos animais, e eles o ensinarão, ou às aves do céu, e elas lhe contarão; fale com a terra, e ela o instruirá, deixe que os peixes do mar o informem. Quem de todos eles ignora que a mão do SENHOR fez isso?” (Jó 12.7-9). Mais que isso, a Bíblia afirma que nem mesmo os demônios duvidam da existência de Deus: “Você crê que existe um Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios creem -  e tremem!” (Tiago 2.19).

 Conclusão

 A Bíblia desqualifica o ateísmo como crença válida revelando sua irracionalidade, inconsistência e incoerência. Dessa maneira, a Bíblia não perde tempo com o ateísmo, ela se preocupa com a idolatria. O primeiro dos Dez Mandamentos é contra a idolatria não contra o ateísmo. O grande perigo da civilização não é que ela não creia em Deus, mas que ela se entregue às fantasias e imaginações ímpias. Os homens nunca deixarão de crer em algo, eles sempre estão em busca de Deus, de sentido, de propósito, de vida eterna.  Assim, os homens sempre estão fazendo deuses para si. Mesmo os ateus adoram deuses, seja o sexo, o vício, o dinheiro, o status, ou até mesmo um filósofo. A grande pergunta não é: “Deus existe?”, mas sim: “Que tipo de Deus existe?”. Por isso Jesus também não se preocupou tanto com o ateísmo, mas com a idolatria. A preocupação dele não era apenas que as pessoas acreditassem em Deus, mas sim no Deus verdadeiro. Ele orou assim: “Esta é a vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17.3).

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O HOMEM DO ESPELHO


O HOMEM DO ESPELHO

 

Quando conseguir tudo que quer na luta pela vida e o mundo fizer de você rei por um dia, procure um espelho, olhe para si mesmo e ouça o que aquele homem tem a dizer.

Porque não será de seu pai, mãe ou mulher o julgamento que terá que absolvê-lo. O veredicto mais importante em sua vida será o do homem que o olha do espelho.

Alguns podem julgá-lo modelo, considerá-lo um ser maravilhoso, mas ele dirá que você é apenas um impostor, se não puder fitá-lo dentro dos olhos.

É a ele que deve agradar, pouco importa os demais, pois será ele quem ficará ao seu lado até o fim. E você terá superado os testes mais perigosos e difíceis se o homem no espelho puder chamá-lo de amigo.

Na estrada da vida, você pode enganar o mundo inteiro, e receber tapinhas no ombro ao longo do caminho, mas, seu último salário será de dores e lágrimas, se enganou o homem que o fita no espelho.

                                                                                                                                         

                                                                  Dale Wimbrow

quarta-feira, 24 de outubro de 2012


DEIXOU DE SER RIO PARA TORNAR-SE OCEANO

Um réquiem ao Sr José Maria Duprat (Nosso “Rubem Alves”) Membro fundador da AGL - Academia Guaçuana de Letras -
 
                                                                     Mauro Martins Dos Santos - Membro Fundador da AGL.

Conta-se uma história, que uma pequenina fonte começou a borbulhar lá no alto de uma enorme e íngreme montanha e um filete de água iniciou a sua jornada.

Foi descendo pelas encostas, foi crescendo com outras fontes, aumentando seu volume, e num esplendido salto atingiu lá embaixo o vale, no sopé da montanha.

Foi correndo célere por entre as árvores dos bosques, as pedras,  formando corredeiras e cachoeiras  lutando em seu caminho ora mais facilmente, ora com dificuldades. Admirava-se, sua força, sua habilidade e persistência ao vencer os obstáculos.

 Crescia em percurso e largura. Passou por planícies e por áreas desérticas. Umedeceu-as, dando-lhes condições de acolher as sementes para florescerem e darem frutos. Forneceu os frutos do alimento a homens, mulheres e crianças que se agrupavam às suas margens.

Matou a sede da terra, de povos, de animais e de pássaros, soube louvar e honrar a natureza. Teve sempre a Fé enaltecedora dos mansos de espírito ao seu  Criador!

Conheceu outras correntes de água e as reuniu em si, tornando-se maior e mais fecundo. Os peixes, seus amigos, nutriam-se e multiplicavam-se em suas águas translúcidas.

Era feliz! Fazia aos outros felizes com sua mansidão, virtude dos verdadeiramente fortes. Mas, chorou um choro de águas, que só Deus pode ver, quando lhe caiu uma “Ponte”. A mais amada de todas as Pontes, a que unia com resplendor suas mais veneradas margens.  As margens em torno das quais se reuniam aqueles que lhe eram mais caros. E ela os unia.

Porém, certo dia, um pouco adiante, foi despertado para uma realidade: seu caminho seguia, inexoravelmente em direção ao mar, talvez alertado por uma ligeireza em suas correntes mais profundas.

Parecia ao bravo rio - no entanto sem murmúrios – que estaria chegando o momento em que iria entrar no “Grande Oceano Azul”, assim pensava, e, que iria desparecer como rio, para sempre.

Pensou  contudo,  ser esta realidade um meio de ingressar em outro leito que o fizesse voltar à sua tão amada Ponte ou encontrá-la outra vez. Mas não havia como saltar sobre o  horizonte distante e invisível do  Grande Oceano Azul, nem tão pouco voltar atrás. Os rios não voltam jamais. Mas podem encontrar quem os amou um dia. As flores não lhes são lançadas em vão...

Ao fazer a derradeira curva, teve em sua superfície refletidas as nuvens brancas e além o Infinito  Azul, quando descortinou-se aos seus olhos o interminável mar. Imenso.  Sentiu um quê não conhecido, não sentido em seu curso, seria o tão falado medo?

Não. O grande e valente Rio não conhecia a palavra medo. Poderia Ignorar, mas ao vivenciar, ao saber, tudo se tornava claro como suas próprias águas que lhe davam a consistência da vida.

No entanto, percebeu que esse era o seu porto final. E, confiante como em toda sua existência, fez a sua última descida. Ingressou Naquele que era maior que a si próprio, o vasto e profundo Oceano.

Brilhou então a Verdade. Entrar no Grande Oceano Azul não é deixar de existir, não é morrer, não é o fim e sim tornar-se parte dele, para um recomeço do sagrado ciclo da criação pelas mãos do Sagrado Artífice do Universo.

O garboso e sereno Rio, após seu singular percurso, tornou-se parte integrante do mar, como tantos outros rios que haviam chegado de todos os cantos do mundo. Grandes, velhos, jovens, escuros, castanhos, amarelos, rios de todas as partes da Terra, em sonora e borbulhante confraternização, eternizando felizes suas águas, para a grande festa do ciclo vital das águas: todos ansiosos para tornarem-se chuva e caírem das nuvens lá para as bandas de onde nasceram.

Agora nosso querido Rio já não está mais só. É parte de um Grande Plano, onde, entrelaçados e unidos, todos são apenas UM, para todo o Tempo de Deus.

Deixou de ser Rio para se tornar Oceano.

sábado, 13 de outubro de 2012

OSTRA FERIDA

OSTRA FERIDA PRODUZ PÉROLAS RARAS

                                                           Mauro Martins Santos

As pérolas são frutos da dor! São feridas contundentes que dia após dia torturam a humilde ostra nas profundezas do mar. São produtos de uma dor lancinante que penetrada por um corpo estranho no interior da casca da ostra, cola-se ao frágil e mole corpo do molusco e começa a dilacerante tortura. Mas a Natureza em sua imensa sabedoria faz o inimaginável milagre.

A pérola é pois, o fruto da dor. Dor causada por um elemento indesejável : um grão de areia. Um mínimo e insignificante grão de areia. Pense você em seus olhos. Na maravilha de nossos olhos, quando entra-lhes um cisco, um argueiro, um grãozinho de areia. Dor, lágrimas, irritação, desespero tudo por um grão de areia. Com a ostra não é diferente. Mas não é abandonada pela Natureza.

A ostra, lentamente começa a trabalhar com uma substância chamada nácar, a mesma que forra seu interior liso e brilhante.

Gradativamente, camada após camada o nácar fornece células que vão revestindo o grão de areia - ou corpo estranho - para que fique liso e não mais venha a ferir o corpo indefeso da ostra. Como resultado desse processo surge no interior da concha uma linda pérola.

Uma ostra jamais ferida não produz nenhuma pérola. A pérola é o resultado de um sofrimento, uma cicatriz dolorosa que foi curada preciosamente e lentamente, mas de forma eficaz, pelo indefeso animal, sem mãos nem pés, ossos ou resitência.

Quando nos sentirmos feridos pelos embates da vida, deveríamos nos lembrar da ostra. Quando a dureza e rusticidade das outras pessoas, com seus preconceitos, rejeições, mentiras, injúrias e  hipocrisia tentarem nos atingir vamos fabricar uma pérola, quanto mais ferido o corpo da ostra maior e mais preciosa é a pérola que ela produz.

Vamos cobrir as injúrias do mundo com várias camadas do nácar do amor e perdão. Não vamos aumentar a legião daqueles que não entendem esse processo e ficam com suas feridas abertas e expostas aos ressentimentos.

O que vemos são muitas ostras abertas e vazias, por não terem fornecido nenhuma pérola. Atiradas fora por nada terem produzido: nada de útil, nada de perdão, amor, compaixão, alegria de viver, sorrir, cantar e dançar na grande sinfonia do Universo.

Vamos produzir pérolas para o Universo transformar em estrelas sorridentes na grande morada do céu cintilante da gratidão, do imenso dom da vida, que recebemos gratuitamente para usufruirmos com sabedoria.